Minha filha de oito anos não pediu um abraço quando voltei para casa depois de cinco dias de viagem.
Ela pediu que eu prometesse não contar à mãe que estava sentindo dor.
Essa foi a primeira pista de que alguma coisa terrível havia acontecido enquanto eu estava longe.
Meu nome é Lucas Ferraz, tenho trinta e nove anos e trabalho como gerente de auditoria de uma empresa de engenharia.
Naquela semana, eu havia viajado de Joinville para Belo Horizonte para acompanhar uma inspeção importante.
Era o tipo de compromisso que exigia reuniões intermináveis, relatórios e ligações até tarde da noite.
Durante cinco dias, conversei com minha esposa, Patrícia, todas as noites.
Ela sempre dizia que estava tudo bem.
Nossa filha Nina estava estudando, comendo normalmente e dormindo cedo.
Pelo menos era nisso que eu acreditava.
Na quinta-feira, meu voo chegou antes do previsto.
Passei em uma padaria, comprei os pãezinhos de queijo favoritos de Nina e dirigi até nossa casa pensando na surpresa que faria.
Abri a porta às 19h12.
A televisão estava desligada.
Havia um copo de água sobre a mesa e um cheiro forte de produto de limpeza no corredor.
— Nina? Papai chegou!
Esperei ouvir os passos apressados que sempre anunciavam sua chegada.
Nada.
Deixei a mala no chão e caminhei até a cozinha.
A luz da lavanderia estava acesa.
Foi quando vi um par de pés pequenos atrás da porta.
— Filha?
Nina apareceu devagar, segurando Pipoca, seu coelho de pelúcia, contra o peito.
Usava um moletom roxo apesar da noite abafada.
Seus cabelos castanhos estavam presos de qualquer jeito, e havia sombras escuras sob seus olhos.
— Oi, papai.
A voz dela era quase um sussurro.
Abri os braços, mas ela não se aproximou.
— Não quer dar um abraço no seu velho?
Nina tentou sorrir.
— Quero.
Só que minhas costas estão doendo.
Abaixei os braços imediatamente.
— Você caiu?
Ela olhou para a janela da cozinha, depois para a porta da garagem.
— A mamãe disse que eu não podia contar.
Senti um aperto no peito.
Ajoelhei para ficar na altura dela.
— Você pode me contar qualquer coisa, Nina.
Ela apertou a orelha do coelho.
— Mas ela falou que, se eu contar, você vai deixar de me amar.
E que a gente vai deixar de ser uma família.
Não sei quanto tempo permaneci naquela posição.
Lembro apenas do barulho do relógio na parede e da sensação de que cada segundo exigia uma decisão importante.
— Filha, nada que você me contar vai fazer eu deixar de amar você.
Nina começou a chorar silenciosamente.
— Eu derramei suco nos papéis da mamãe.
Foi sem querer.
Eu tentei limpar.
Ela explicou que Patrícia estava ao telefone quando o acidente aconteceu.
Havia documentos sobre a mesa, e um copo de suco caiu sobre alguns deles.
Patrícia começou a gritar.
Nina tentou recolher as folhas molhadas, mas a mãe segurou seu braço e a levou até a área de serviço.
— Ela me empurrou, papai.
Minhas costas bateram no portão.
A menina abaixou a cabeça.
— Depois ela disse que eu merecia, porque faço tudo errado.
Meu primeiro impulso foi pegar o telefone e exigir que Patrícia voltasse para casa.
Mas a voz da minha filha me impediu.
— Você está bravo comigo?
Aquela pergunta