— Depois de tudo que fizemos por você?
A velha culpa apareceu como um reflexo.
Por um instante, quase comecei a explicar, justificar, prometer visitas.
Então me lembrei do envelope sobre a mesa.
— Sou grato pelo que fizeram por mim.
Isso não significa que eu tenha que continuar pagando por decisões que vocês esconderam de mim.
Minha mãe enxugou as lágrimas.
— E as contas daqui?
— Vocês vão precisar reorganizá-las.
— Seu irmão não consegue cobrir tudo.
Renato surgiu no corredor.
— Então eu vou descobrir o que consigo cobrir.
Meu pai olhou para ele, surpreso.
Renato continuou:
— Lucas não vai ficar porque eu fiz escolhas ruins.
Talvez aquela tenha sido a primeira verdadeira mudança naquela casa.
Não houve abraço coletivo.
Nenhuma música imaginária tocou.
Meu pai continuou ressentido.
Minha mãe continuou assustada.
Renato ainda tinha dívidas.
Os documentos da casa ainda precisavam ser analisados.
Mas a mentira central havia acabado: eu não era obrigado a sacrificar minha vida apenas porque era o filho considerado mais estável.
Na manhã da mudança, minha avó apareceu antes das oito com uma garrafa térmica e dois pães de queijo embrulhados num pano.
— Pensei que precisasse de café — disse.
— A senhora veio fiscalizar?
— Evidentemente.
Ela carregou uma caixa pequena apesar dos meus protestos.
Renato ajudou com a escrivaninha.
Sofia desenhou uma casinha num pedaço de papel e colocou dentro da primeira caixa que levei.
Minha mãe ficou na porta, braços cruzados contra o peito.
Quando terminei, ela me abraçou.
— Eu realmente achei que estava fazendo o melhor para todos.
— Eu sei.
E sabia mesmo.
Esse era o problema mais difícil: pessoas podem machucar alguém sem acordar de manhã planejando ser cruéis.
Minha mãe tinha medo de ver Renato fracassar.
Meu pai tinha medo de admitir que perdera o controle financeiro.
Eu era o filho que parecia seguro, então me transformaram na margem de segurança da família.
Compreender não significava aceitar.
Meu pai apareceu quando eu já estava entrando no carro.
Por alguns segundos, nenhum de nós falou.
Então ele estendeu uma chave de fenda que eu havia deixado na garagem.
— É sua.
Peguei a ferramenta.
— Obrigado.
Ele olhou para o porta-malas cheio.
— Eu devia ter contado sobre o dinheiro.
Não era um pedido de desculpas completo.
Ainda não.
Mas era a primeira rachadura na certeza dele.
— Devia.
Ele assentiu.
— Ligue quando chegar.
Meu apartamento novo cheirava a tinta e poeira.
A geladeira estava vazia.
Não havia sofá.
Durante a primeira noite, jantei sentado no chão, usando uma caixa como mesa.
Minha avó estava comigo.
Ela ergueu um copo de refrigerante.
— Ao aluguel de verdade.
Eu ri.
— Tecnicamente, agora pago mais.
— Sim.
Mas sabe pelo que está pagando.
Olhei em volta.
Pela janela, as luzes dos apartamentos vizinhos começavam a acender.
Havia barulho de ônibus na avenida e alguém cozinhando alho em algum andar abaixo.
Meu telefone vibrou.
Era uma mensagem de Renato: uma foto de Sofia segurando o desenho que tinha feito para mim.
Em seguida veio outra mensagem: ele conseguira um turno extra para o sábado seguinte.
Depois apareceu uma mensagem da minha mãe perguntando se eu tinha comida.
Por último, uma do meu pai.
Apenas quatro palavras: ‘Vamos acertar as coisas.’
Não sabia se conseguiríamos.