os agentes o abordaram.
Minha mãe fechou um acordo de colaboração, entregou mensagens, contratos e informações sobre Henrique Salgado.
Ela responderia por participação em crimes financeiros, mas em condições diferentes das de meu pai.
O advogado também foi preso.
A investigação identificou dezenas de vítimas.
Minha avó recuperou uma parte significativa do patrimônio porque algumas transferências foram bloqueadas antes que o dinheiro desaparecesse em novas contas.
Meses depois, acompanhei Teresa ao fórum para uma audiência relacionada às medidas de proteção patrimonial.
Na saída, sentamos num banco sob o sol frio da manhã.
Ela tirou da bolsa um pacote de biscoitos e me ofereceu um.
— Sabe do que eu mais me arrependo? — perguntou.
— De ter emprestado dinheiro para ele?
— Não.
Ela quebrou um biscoito ao meio.
— De ter demorado tanto para confiar no meu próprio desconforto.
Fiquei em silêncio.
Ela continuou:
— A gente envelhece e começa a ouvir que está esquecendo tudo, confundindo tudo, exagerando tudo.
Depois de um tempo, até uma mulher que passou quarenta anos ensinando matemática começa a pensar que talvez dois mais dois tenham virado cinco.
Segurei sua mão.
— Para você, nunca virou.
Ela sorriu.
— Quase.
Meu relacionamento com minha mãe tornou-se algo difícil de nomear.
Ela me telefonava às vezes.
Eu atendia algumas dessas ligações.
Outras, não.
Não havia uma conversa capaz de apagar o fato de que ela ajudara a convencer Teresa de que estava confusa para proteger o próprio casamento.
Mas também não havia satisfação em vê-la perder a casa, amigos e grande parte da vida que construíra.
Consequência não parecia vingança.
Parecia apenas consequência.
Meu pai tentou falar comigo uma única vez antes do julgamento.
Aceitei encontrá-lo numa sala reservada, acompanhada por seu advogado e pelas regras apropriadas.
Ele parecia menor sem a segurança da própria casa.
— Você poderia ter resolvido isso dentro da família — disse.
Eu quase ri.
— Foi exatamente isso que você contou às vítimas, não foi?
Ele fechou a cara.
— Você gosta de se sentir superior.
— Não.
Inclinei-me para a frente.
— Eu passei treze anos ouvindo você me chamar de fracassada porque achava mais seguro deixar você pensar isso.
Eu nunca precisei que soubesse quem eu era.
Mas a vó precisava que alguém acreditasse nela quando vocês tentaram dizer que ela estava confusa.
Ele olhou para a mesa.
— Eu ia devolver o dinheiro.
— Talvez tenha dito isso a si mesmo no começo.
Ele não respondeu.
Foi a última vez que conversamos por muito tempo.
Quase um ano depois da mensagem, Teresa voltou à minha casa num domingo.
Levei uma pequena mesa para a varanda do apartamento.
Colocamos o velho tabuleiro de xadrez entre nós.
Ela moveu um peão.
— Sua vez.
— Você está me dando uma armadilha?
— Se eu disser, deixa de ser armadilha.
Joguei meu cavalo.
Ela estreitou os olhos.
— Interessante.
Meu celular vibrou sobre a mesa.
Era uma mensagem de minha mãe.
Não abri imediatamente.
Teresa percebeu.
— Você pode ler.
— Depois.
Ela olhou para o tabuleiro.
— Ainda tem medo de algumas mensagens?
Pensei na frase que havia mudado tudo.
O relógio da varanda parou.
Naquela tarde, porém, o pequeno relógio pendurado na parede ao nosso lado funcionava perfeitamente.
O ponteiro avançava com um tique discreto, regular.