No fim das contas, ela sabe ser uma esposa adequada.
Eleanor ergueu a xícara.
— Finalmente.
Claire caminhou até o aparador e pegou a travessa coberta.
Colocou-a diante de Adrian.
— Falta uma coisa.
Ele franziu a testa.
— O quê?
— Sua surpresa.
Três batidas fortes soaram na porta lateral.
O garfo de Eleanor parou no ar.
Adrian olhou para Claire.
— Quem é?
— Eu estava esperando alguém.
Foi a primeira frase naquela manhã que fez o rosto dele mudar.
Claire abriu a porta.
Helena Duarte estava na soleira usando um sobretudo escuro.
Atrás dela havia dois investigadores, um com uma pasta preta e outro segurando discretamente uma carteira funcional.
— Senhora Mercer?
— Sim.
Helena entrou.
Então olhou para Adrian.
— Senhor Mercer, somos da força-tarefa responsável pela investigação das contas da Fundação Mercer.
Adrian perdeu a cor.
Eleanor colocou a xícara na mesa.
— Investigação?
Helena se virou para ela.
— Sim, senhora.
Eleanor olhou para o filho e sussurrou:
— Adrian, você disse que tinha apagado tudo.
O silêncio que se seguiu pareceu ocupar cada canto da sala.
Adrian fechou os olhos.
Quando tornou a abri-los, encarou a mãe.
— Fique quieta.
Mas era tarde demais.
Helena aproximou-se da mesa.
— Conforme combinado com a senhora Mercer, estamos aqui para recolher evidências originais e executar mandados relacionados às propriedades e registros financeiros vinculados à fundação.
Adrian virou-se lentamente para Claire.
— Você fez isso?
Ela ergueu a tampa da travessa.
O envelope pardo apareceu.
O pequeno gravador estava ao lado.
A chave de cofre brilhou sob a luz da manhã.
— Eu fiz uma escolha — disse Claire.
— Depois de descobrir o que estava acontecendo.
Adrian levantou-se tão rápido que a cadeira raspou no piso.
Um investigador avançou um passo.
Ele parou.
— Ela invadiu meus arquivos — disse Adrian.
— Isso é ilegal.
— Muitos dos documentos vieram de contas conjuntas, equipamentos domésticos e materiais deixados em áreas compartilhadas — explicou Helena.
— O restante foi obtido por vias independentes durante a investigação.
Adrian olhou novamente para Claire.
— Há quanto tempo?
— Cinco meses.
Por um instante, ele pareceu verdadeiramente atingido.
Não pela fraude descoberta.
Pelo fato de Claire ter escondido algo dele.
— Cinco meses — repetiu.
— Foi o tempo necessário para entender o tamanho da mentira.
Eleanor levantou-se.
— Você não tem ideia do que está fazendo com esta família.
Claire encarou-a.
— Descobri empresas falsas recebendo dinheiro destinado a clínicas comunitárias.
Uma das clínicas cancelou um programa infantil porque os recursos não chegaram.
Acho que sei exatamente o que isso significa.
Eleanor apertou os lábios.
— Você está falando de coisas que não entende.
Helena abriu a pasta.
— Então talvez a senhora possa nos ajudar.
Retirou algumas folhas.
— Identificamos quatro empresas de fachada.
Três foram abertas usando informações ligadas a antigos funcionários da fundação.
A quarta existe há onze anos.
Claire franziu a testa.
Onze anos.
Muito antes de Adrian assumir formalmente a administração.
— Quem abriu a quarta? — perguntou.
Helena não respondeu imediatamente.
Observou Eleanor.
A mãe de Adrian havia ficado estranhamente imóvel.
— A assinatura nos documentos pertence a Thomas Mercer.
O nome caiu na sala como vidro quebrando.
Thomas era o pai de Adrian.
Oficialmente, morrera em um acidente de barco quase