antes que fizesse isso.
“Chame um carro para ela.”
Mariana virou o rosto devagar.
“Um carro?”
“Sim.
Você vai ao hospital, nós vamos ao aeroporto.
Se for mesmo trabalho de parto, você liga.”
“Sônia, sua neta pode nascer hoje.”
“Bebês não seguem relógio, Mariana.
Ela pode levar vinte horas para nascer.”
“E eu deveria passar essas vinte horas sozinha?”
Sônia abriu os braços.
“Você tem amigas.
Tem sua irmã.
Não precisa transformar Caio em refém.”
Mariana olhou para o marido.
“Caio, eu não estou pedindo autorização da sua mãe.
Estou pedindo que meu marido fique comigo enquanto nossa filha nasce.”
Ele abriu a boca.
Fechou.
Olhou para a mãe.
E essa foi a resposta.
Mariana sentiu alguma coisa dentro dela se partir com uma clareza estranha.
Não foi dramático.
Não houve grito.
Apenas uma compreensão fria de que o homem diante dela não estava indeciso sobre uma viagem.
Ele estava escolhendo quem teria prioridade quando ela estivesse vulnerável.
E não era ela.
A buzina da van soou na rua.
Sônia pegou a bolsa.
“Acabou.
Temos que ir.”
Caio hesitou perto da porta.
“Vou pedir um carro para você.”
“Fica.”
“Mariana…”
“Não.
Não explica.
Só fica.”
Ele abaixou os olhos.
Depois levantou a mala.
Mariana não implorou de novo.
Quando os três saíram, ela tentou avançar alguns passos, mas outra contração a obrigou a se curvar.
Foi então que ouviu Sônia do lado de fora.
“Tranque a porta.
E o portão lateral também.
Ela pode resolver nos seguir e fazer escândalo no aeroporto.”
“Mãe, isso é ridículo.”
“Então tranque e vamos.”
Mariana ficou imóvel.
Houve um clique eletrônico.
Depois outro.
Caio realmente fez o que a mãe pediu.
Ele a deixou trancada dentro da própria casa.
A van partiu menos de um minuto depois.
Mariana ouviu o motor desaparecer pela rua enquanto tentava chegar até a cozinha.
Seu celular estava carregando ao lado da cafeteira.
A distância parecia absurda durante as contrações.
Ela avançou apoiando uma mão na parede e outra sob a barriga.
A cada poucos passos, precisava parar e respirar.
Quando finalmente pegou o telefone, havia uma nova mensagem de Caio.
“Não fica brava.
Assim que a gente pousar eu te ligo.”
Nenhuma pergunta sobre a dor.
Nenhum pedido para saber se ela estava segura.
Mariana ligou para o serviço de emergência.
Depois, para sua irmã mais velha, Renata.
“Mari?”
A voz de Renata mudou assim que ouviu a respiração dela.
“O que aconteceu?”
“Minha bolsa rompeu.”
“Onde está o Caio?”
Mariana fechou os olhos.
“No caminho para o aeroporto.”
Houve silêncio.
“Ele foi embora?”
“Foi.”
“Estou indo.”
Renata chegou quase ao mesmo tempo que a ambulância.
Encontrou o portão trancado, falou com os socorristas e entrou quando conseguiram acesso pela garagem.
Mariana estava sentada no chão da cozinha.
Renata se ajoelhou ao lado dela.
“Eles foram mesmo.”
Não era uma pergunta.
Mariana assentiu.
A irmã segurou sua mão.
“Você não vai ficar sozinha.”
Aquelas foram as primeiras palavras gentis que Mariana ouvira naquela manhã.
No hospital, o trabalho de parto evoluiu rapidamente.
Houve momentos de medo.
A frequência cardíaca do bebê caiu durante uma sequência de contrações, a equipe mudou Mariana de posição, ajustou medicação e monitorou de perto.
Renata permaneceu ao lado da cama o tempo todo.
Caio não ligou.
Às 18h47, Elisa nasceu.
Pesava pouco mais