um jantar e chegou a discutir nomes para a bebê.
Então voltou a chegar tarde.
Começou a proteger o telefone.
E apareceu Bianca Salles.
Oficialmente, Bianca era consultora de relações públicas contratada para ajudar Marcos a se aproximar do conselho do Fundo Harrington, uma instituição privada que financiava museus, programas educacionais e restauração de edifícios históricos.
Na prática, ela se tornou presença constante.
Reuniões que terminavam depois da meia-noite.
Viagens em que meu convite se perdia misteriosamente.
Fotografias em eventos onde os dois apareciam próximos demais para serem apenas colegas.
Quando perguntei, Marcos riu.
“Você está insegura porque está grávida.
Não transforme isso em problema meu.”
Eu tentei acreditar nele.
Até a tarde em que ele esqueceu uma pasta em casa.
“Preciso disso antes das duas”, disse ao telefone.
“Manda alguém trazer.”
“A governanta saiu.”
“Então venha você.”
Eu estava com oito meses de gravidez.
Havia chovido a manhã inteira.
Mesmo assim, dirigi até a estação, peguei o trem e depois um carro até o escritório dele.
A recepcionista me recebeu com surpresa.
“O senhor Vale saiu para almoçar.”
“Sabe onde?”
Ela hesitou.
Aquilo bastou.
Saí do prédio e vi o carro dele estacionado do outro lado da avenida.
O motorista estava sozinho.
A cinquenta metros dali havia um restaurante com grandes janelas.
Marcos estava sentado em uma mesa lateral.
Bianca estava ao lado dele.
Não em frente.
Ao lado.
Ela usava o colar de safiras da minha mãe.
Por um instante, foi aquilo que mais me feriu.
Eu não usava a peça havia anos, mas guardava o colar numa pequena caixa no cofre de casa.
Marcos sabia o significado que tinha para mim.
Bianca disse alguma coisa.
Ele riu.
Então levou uma colher de sobremesa até a boca dela.
A mão de Marcos pousou na cintura de Bianca.
Ela tocou o rosto dele.
E ele a beijou.
Eu parei na calçada.
A pasta que carregava ficou pesada contra meu peito.
Minha filha se mexeu.
Foi nesse momento que Marcos abriu os olhos.
Ele me viu através da janela.
Nossos olhares se encontraram.
Eu esperei vergonha.
Pânico.
Qualquer sinal de que ainda existia alguma fronteira que ele não pretendia atravessar.
Marcos apenas sorriu.
Depois voltou a beijar Bianca.
Não entrei no restaurante.
Não bati na janela.
Não fiz escândalo.
Deixei a pasta na recepção do prédio e voltei para casa.
Naquela noite, sentei na biblioteca que pertencera ao meu pai.
Era o único cômodo da casa que Marcos nunca conseguira transformar completamente.
As estantes escuras, a velha poltrona de couro e o relógio de mesa continuavam exatamente onde meu pai os deixara anos antes.
Marcos chegou perto da meia-noite.
“Você recebeu a pasta?”, perguntei.
Ele tirou o casaco.
“Recebi.”
“Eu vi você.”
Ele parou.
“Onde?”
“Com Bianca.”
Um silêncio curto.
Depois, inacreditavelmente, ele pareceu aliviado.
“Então finalmente não preciso mais esconder.”
As palavras me atingiram com mais força do que o beijo.
“Há quanto tempo?”
“Isso importa?”
“Para mim, importa.”
Ele caminhou até o bar, serviu uísque e me observou acima do copo.
“Helena, olha para você.”
Seu olhar desceu até minha barriga.
“Você está enorme.
Parece uma baleia andando pela casa.
Minha vida não pode parar porque você decidiu virar apenas mãe.”
Eu senti calor no rosto.
Não respondi.
Marcos tomou um gole.
“Depois que a criança nascer, resolvemos