Ela vive reclamando.
— Ela nunca reclamava de nada perto de mim — disse Rafael.
— E agora eu sei por quê.
Sofia observou o marido como se o conhecesse e não conhecesse ao mesmo tempo.
Parte dela queria acreditar naquela indignação.
Outra parte lembrava de quantas vezes tentara dizer que Lídia invadia seus limites, e Rafael respondera:
— Ela só quer ajudar.
Não compre briga.
Ele tinha participado do problema, mesmo sem enxergar o tamanho dele.
Talvez por isso, quando Rafael se aproximou, Sofia ergueu a mão.
— Não.
Ele parou.
— Sofia…
— Você não fez isso comigo.
Mas me pediu durante anos para engolir pequenas coisas porque era mais fácil manter a paz.
Eu quase morri no chão da cozinha de uma casa onde todos sabiam que eu deveria ficar em silêncio.
Rafael baixou os olhos.
— Você tem razão.
Lídia olhou para o filho como se ele tivesse cometido uma traição.
— Vai ficar contra sua própria mãe por causa dela?
Rafael virou-se devagar.
— Não.
Estou ficando contra quem deixou minha esposa sangrar no chão.
Elisa abriu a pasta.
— Também precisamos tratar da permanência de vocês no imóvel.
Augusto se levantou.
— Ninguém vai expulsar minha família hoje.
— A autorização de moradia previa revogação imediata em caso de violência, dano intencional à propriedade ou risco a outro residente — explicou Elisa.
— Temos dois desses três fatos documentados em vídeo nos últimos cinco minutos.
O terceiro pode ser apurado pelo restante das gravações.
Bruna cruzou os braços.
— Que restante?
Foi então que Sofia se lembrou de uma notificação que aparecera no celular dela antes da crise.
Movimento detectado.
Cozinha.
01h07.
Ela estivera dormindo naquele horário.
— Rafael — disse.
— Veja a gravação de uma e sete da manhã de quarta.
Ele pesquisou o horário.
O primeiro minuto parecia irrelevante.
Lídia e Bruna estavam sentadas à mesa, falando baixo.
Então a voz de Bruna apareceu com clareza:
— Ela vai perceber quando olhar o extrato.
Lídia respondeu:
— Não se eu transferir em partes.
Ela nunca confere aquela conta.
Sofia sentiu o estômago gelar.
Rafael parou o vídeo.
— Que conta?
Bruna desviou os olhos.
Sofia já sabia.
Meses antes, Lídia pedira a ela acesso temporário a uma conta doméstica para pagar fornecedores durante uma viagem.
Sofia usara a mesma instituição bancária para administrar um fundo pessoal menor destinado às despesas da casa.
As senhas eram diferentes, mas o computador da cozinha lembrava logins.
Sofia subiu com dificuldade até o escritório, acompanhada por Rafael e Elisa.
Abriu o notebook e entrou no banco.
Havia seis transferências que ela não reconhecia.
Todas para uma empresa chamada BC Consultoria Residencial.
Bruna começou a negar antes mesmo de alguém acusá-la.
— Eu nunca ouvi falar disso.
Elisa pegou o celular.
— Posso verificar o registro empresarial.
Minutos depois, encontrou a empresa vinculada a um endereço comercial usado por uma antiga loja on-line de Bruna.
O total retirado em três meses era de oitenta e quatro mil dólares.
Lídia perdeu a postura.
— Nós íamos devolver.
Sofia a encarou.
— Então vocês sabiam que era meu.
Nenhuma resposta.
Rafael apertou a mandíbula.
— Mãe, você roubou dinheiro dela?
— Não use essa palavra.
— Qual palavra prefere?
Augusto bateu a mão na mesa.
— Basta.
Todo