comigo durante a semana inteira.
Depois me venceu em um jogo de cartas cujas regras pareciam mudar sempre que eu estava prestes a ganhar.
— Isso não estava na regra — reclamei.
Ela sorriu.
— Estava na minha cabeça.
— Lugar extremamente conveniente para guardar regras.
Lia riu.
Foi um som tão espontâneo que percebi, de repente, como eu raramente a ouvira rir perto da mãe.
Às oito e cinquenta, o sorriso desapareceu.
Ela olhou para o relógio.
— Você vai falar com a mamãe?
— Provavelmente.
Ela pediu para eu avisar que estava tudo bem.
Lia começou a puxar um fio solto da manga.
— Ela vai perguntar se eu fui difícil.
— Você acha que foi?
— Ela sempre acha.
Sentei-me diante dela.
— O que significa ser difícil?
Lia ficou imóvel.
— Quando eu faço alguém querer ir embora.
Meu desconforto se transformou em atenção completa.
— Quem disse que você faz isso?
Ela olhou para a mesa.
— Mamãe.
— Sua mãe disse que as pessoas vão embora por sua causa?
Lia assentiu.
— Ela disse que o Marcos gostava dela até cansar de mim.
Marcos era o ex-companheiro de Renata.
Eu sabia pouco sobre ele.
Segundo Renata, o relacionamento terminara mal porque Marcos era instável e havia simplesmente abandonado as duas.
— Você gostava dele?
A menina esfregou os olhos.
— Ele acreditava em mim.
Antes que eu pudesse perguntar o que aquilo significava, Lia levantou-se.
— Posso dormir agora?
— Claro.
Na madrugada, ouvi um ruído no corredor.
Encontrei Lia sentada no chão do banheiro, os joelhos junto ao peito.
— Está passando mal?
— Minha cabeça está estranha.
Verifiquei se estava febril.
Não estava.
— Você tomou alguma coisa?
O rosto dela mudou.
Foi uma reação mínima, mas clara.
— Vitamina.
— Que vitamina?
— Não sei.
— Sua mãe te dá todo dia?
Ela começou a respirar mais rápido.
Percebi que havia chegado a um limite e parei.
— Tudo bem.
Não precisa responder agora.
Levei água, fiquei por perto até ela se acalmar e fiz uma anotação mental para conversar com Renata sem acusá-la de nada.
Na manhã seguinte, Lia parecia bem.
Brincou, tomou café, passou parte da tarde desenhando.
À noite, enquanto eu lavava a louça, ela apareceu na cozinha com Pipoca debaixo do braço.
— Gabriel?
— Oi.
— Se eu te contar uma coisa, você promete que não vai ficar bravo comigo?
Se existe uma frase capaz de acionar cada instinto de proteção dentro de alguém que trabalha em emergência, é essa.
Sequei as mãos.
— Eu não vou ficar bravo com você por me contar algo que está te assustando.
Ela continuou parada.
— E você não vai embora?
— Não por causa de uma verdade sua.
Lia me estudou durante alguns segundos.
Então virou o coelho de pano e abriu uma pequena costura escondida atrás de uma das patas.
De lá tirou um frasco âmbar do tamanho de dois dedos.
O rótulo estava rasgado.
Entregou-me o objeto como se fosse perigoso tocá-lo.
— O que é isso?
— A coisa que mamãe coloca no meu suco quando eu sou ruim.
O mundo pareceu ficar estreito ao meu redor.
Mantive a voz controlada.
— Como você sabe que ela coloca isso?
— Eu vi.
— E o