Meu nome é Gabriel, e aprendi há muito tempo que algumas pessoas conseguem mentir com a voz, mas quase ninguém consegue obrigar o próprio corpo a mentir para sempre.
Trabalho como fisioterapeuta respiratório em uma unidade de emergência em Curitiba.
Passei anos observando famílias em seus piores momentos: acidentes, crises, noites intermináveis em corredores de hospital.
Aprendi a reparar em detalhes que muitas pessoas ignoram.
O modo como alguém se afasta de um toque.
A maneira como procura aprovação antes de responder.
O silêncio que aparece quando uma pergunta simples chega perto demais de alguma coisa perigosa.
Ainda assim, não reconheci imediatamente o que estava acontecendo com Lia.
Quando conheci Renata, achei que havia encontrado alguém extraordinariamente organizada.
Ela trabalhava na área comercial de uma empresa de tecnologia médica, viajava com frequência e parecia capaz de controlar vinte compromissos ao mesmo tempo sem levantar a voz.
Era elegante, divertida e atenciosa.
Sabia qual vinho eu gostava, lembrava o aniversário da minha irmã e fazia perguntas sinceras sobre meus plantões.
A única parte da vida dela que parecia sempre cercada de tensão era a filha.
Lia tinha oito anos quando fui morar com elas.
Na primeira noite, enquanto eu carregava caixas pelo corredor, encontrei-a sentada no último degrau da escada, abraçando um coelho de pano desbotado chamado Pipoca.
— Você vai morar aqui? — perguntou.
— Vou.
— Por muito tempo?
A pergunta me pareceu estranha, mas respondi com leveza.
— Espero que sim.
Ela apertou o brinquedo.
— Todo mundo fala isso.
Antes que eu pudesse perguntar quem era “todo mundo”, Renata surgiu no alto da escada.
— Lia, para de assustar o Gabriel — disse, com um sorriso.
— Ela testa as pessoas quando está insegura.
Lia se levantou imediatamente.
Foi a primeira vez que vi aquela transformação.
Seu rosto ficou neutro.
Os ombros se recolheram.
Ela passou por nós sem dizer mais nada.
Nas semanas seguintes, comecei a notar um padrão.
Sozinha comigo, Lia era reservada, mas curiosa.
Perguntava como os pulmões funcionavam.
Queria saber por que algumas ambulâncias usavam sirene e outras não.
Gostava de desenhar casas vistas de cima, como se fossem mapas.
Quando Renata entrava no ambiente, porém, Lia parecia revisar cada palavra antes de pronunciá-la.
— Ela tem um temperamento complicado — Renata me explicou certa noite.
— Às vezes inventa histórias.
Não leve tudo ao pé da letra.
Perguntei que tipo de histórias.
Renata deu de ombros.
— Coisas para conseguir atenção.
Já disse na escola que eu não deixava ela dormir, só porque tirei o tablet do quarto.
Uma vez falou para minha irmã que eu tinha jogado todos os brinquedos dela fora.
Criança dramatiza.
A explicação parecia plausível isoladamente.
O problema era a frequência com que Renata se antecipava a qualquer coisa que Lia pudesse me dizer.
Antes de uma viagem a trabalho, por exemplo, Renata me entregou uma folha com horários, telefones e instruções detalhadas.
— Ela talvez tente ficar acordada até tarde.
Talvez diga que está passando mal.
Talvez chore.
Não caia nisso.
— E se ela realmente estiver passando mal?
Renata soltou uma pequena risada.
— Você trabalha em hospital.
Vai saber a diferença.
A frase ficou comigo.
Na primeira noite em que ficamos sozinhos, Lia comeu duas fatias de pizza e falou mais do que havia falado